Ano Novo Chinês

O ANNO NOVO” a Feliciano do Rozario  — Temos festa hoje, aqui. Acaba o anno velho, começa o anno novo. Mas não vão imaginar que seja do anno novo de que rezam os nossos calendarios, a commemoração; tal commemoração, aqui, no fim do mundo, no seio d’esta colonia nostalgica, passa insipida, quasi sem alvoroços intimos de familia, limitada á troca banal ― troca sem cedilha e com cedilha ― de algumas duzias de bilhetes de visita, com as competentes boas-festas escriptas, da pragmatica. Trata-se do anno lunar que finda, do anno lunar que principia, o anno chinez emfim, a ampulheta que marca para o povo amarello as suas horas de existencia; vamos entrar no anno XXII do reinado de sua magestade imperial celestial, Kuang-Su.  Temos festa hoje, aqui. A alma chineza manifesta-se, evidencea-se, domina, hoje; offusca, pela grande maioria dos rabichos, o pallido reflexo da civilisação do Occidente que logrou chegar a este Macau, a este exiguo penedo asiatico, onde Portugal implantou a sua bandeira. (…) …imagino os lumes tremeluzentes das lanternas de papel, accendendo nas poças, pelo reflexo… grandes labaredas ephemeras, ziguezagueando. As lojas estão escancaradas ao publico; fructos, flôres, doces, carniças, bonecos, coisas santas, estendem-se pelos caminhos em prodigiosas theorias, em coloridos quasi estonteantes; e é comprar, e comprar já, porque não tarda em romper o glorioso dia de descanço, o unico na China em que o camponez, o artifice, o vendilhão, todos, cruzam os braços, não trabalham; e nem a peso de ouro se encontraria um linguado, uma caixa de phosphoros, qualquer infimo objecto nos mercados. As espeluncas de jogo, em galas desusadas, offerecem-se, tentam a onda; e até pelas ruas o taboleiro de azar se estende ao passeante. Que pechincha, se se apanha para a festa um accrescimo de peculio não esperado! (…) Quando bate meia noite; quando, junto do altar dos penates, se curvaram em piedosas adorações milhares de cabeças agradecidas, e se queimaram papeis mysticos, e se accenderam pivetes odorificos; quando em plena rua um brado de alleluia os echos acordou; dirige-se então a onda humana para o lar, já mercas feitas, já bolsas esvasiadas; e vae surgir um grande dia votado inteiro ao descanço, votado á glorificação dos deuses, cuja magnanima assistencia se exalta pelas graças concedidas e pelas graças que vão esperar-se!…

WENCESLAU DE MORAES – “Paisagens da China e do Japão”

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